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O Meu Irmão Miguel

March 23, 2012

O meu irmão Miguel faz hoje 18 anos. É com muita pena minha que não estou presente no seu 18º aniversário, mas festejo aqui, sozinha, como se estivesse aí com todos vocês. E é motivo para festejar, porque há 9 anos e 11 meses não sabíamos se alguma vez iríamos celebrar os seus 18 anos de vida.

Há 10 anos atrás, o meu irmão era um menino bem-disposto e traquinas. Quem olhava para ele, ficava contagiado com a sua felicidade e ninguém imaginava que iria acontecer o que aconteceu.

Dia 30 de Abril de 2002, há 10 anos, praticamente, foi-lhe diagnosticado um tumor cerebral. Este é um dos tipos de situações que sabemos que existem e que são graves, mas achamos sempre que só acontecem aos outros. Foi um grande choque para a nossa família e amigos, que mudou as nossas vidas por completo e para sempre, desde aquele momento em que nos disseram que ele estava a fazer uma hidrocefalia e que precisava de ser operado com urgência.

No dia seguinte, entrou para o bloco operatório, enquanto eu e o nosso irmão João Pedro estávamos na escola. Tínhamos apenas 12 e 9 anos, respectivamente. À tarde, depois das aulas, fomos visitar o Miguel ao hospital. Com aquela idade ainda não sabíamos muito bem o que se estava a passar, mas lembro-me que me custou muito olhar para o meu irmãozinho mais novo e ver que estava deitado numa cama, de cabelo rapado, branco como a cal e com um alto na cabeça. Fiquei tão impressionada na altura, que ainda hoje é impossível tirar essa imagem da cabeça.

Felizmente, houve várias coisas que nele nunca desapareceram e que nos ajudaram a todos a superar o pior momento das nossas vidas: o seu sorriso, a sua força de vontade, a sua coragem, a sua paciência, o seu bom humor, a sua fé, a sua esperança e a sua capacidade de aceitar as situações mais complicadas, como se de nada se tratassem… O Miguel já não era bem-disposto e traquinas, mas era a criança mais corajosa e forte que eu alguma vez conheci… Sendo mais novo do que eu, é o meu herói. Sempre que tenho algum problema insignificante, lembro-me de como superou o maior problema que teve na sua vida e que afectou as vidas de todos os que o amam.

Eu nem quero imaginar como seria a minha vida, a nossa vida, se o Miguel não tivesse sido forte como foi, não tivesse lutado como lutou e não tivesse encarado esta situação da forma como encarou. Nunca se questionou porque é que isto lhe tinha acontecido; nunca, por um momento, pensou em desistir; nunca se queixou de dores nem de mau estar… Acima de tudo, nunca perdeu a fé.

Tenho tanto orgulho no meu irmão e no jovem que ele se tornou, dos sonhos que concretizou, da forma como continua a encarar determinadas situações na sua vida, nunca se aproveitando da sua condição, que o tornou no jovem especial, alegre, lutador, corajoso, bem-disposto, maduro, forte… E estou muito feliz que ele faça parte da minha vida, da nossa vida, pois ensinou-nos tantas, mas tantas coisas, que ele nem imagina, nem nunca imaginará.

Miguel, és um milagre. És o nosso milagre. E és o meu herói e a minha maior inspiração.

A tua irmã,

Catarina Ramalheira Ferreira

Ficam aqui algumas fotografias. A primeira é a fotografia de família, antes de o Miguel ficar doente. O cão é o Wally, que por coincidência faz anos no mesmo dia que o Miguel. As seguintes fotografias são minhas e dos meus irmãos: o loiro é o João Pedro, o moreno é o Miguel.

Aproveito para desejar, também, um feliz aniversário ao meu avô, que, há 18 anos atrás, teve a sua melhor prenda de anos de sempre: o meu irmão. Desde então, sempre disse que o Miguel era a sua prendinha. O meu irmão nasceu um mês antes do tempo e calhou nascer precisamente no dia de anos do meu avô. Coincidência? Não há coincidências. Nada acontece por acaso, tudo acontece por uma razão.

Hoje posso dizer, com toda a certeza, que o Miguel não é apenas a prendinha do avô; é a prendinha de todos nós. A sua vida é a maior prenda que todos nós poderíamos ter. Um verdadeiro milagre.

O meu avô e o meu irmão, para além de terem nascido no mesmo dia, são também duas das pessoas que mais me inspiram e por quem mais sinto orgulho. A forma como vivem a sua vida e como lidam com o seu dia-a-dia é absolutamente extraordinária. Eles sim, sabem viver. Porque, como diz o meu avô, não é difícil saber viver, é difícil é saber viver. E eles sabem viver, que é uma das muitas coisas que estou a tentar aprender com eles.

Eu e o meu avô, Alberto Ramalheira:

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From → Português

14 Comments
  1. Sancho de Mascarenhas permalink

    Um grande “like” nesta dedicatória.

  2. josefabettencourt permalink

    Oh, dona Catarina, eu estou com as lágrimas nos olhos. Grande força teve o teu mano e vocês. Ele é uma inspiração para muitos. Fico grata por partilhares algo tão pessoal como esta história. São coisas como estas que nos fazem ter fé na vida. 🙂 Infelizmente, também passámos por algo parecido na nossa família, mas a história não teve um final feliz. Porém, todos os dias lembro-me desta pessoa, minha tia, e encaro a vida de outra forma. E, todas as minhas vitórias são dedicadas a ela. Sempre tive orgulho em dizer que tenho duas mães. A minha mãe sempre fez com que a minha tia, também madrinha, fizesse parte das nossas vidas, tornando-se como uma mãe para nós. Isso porque ela era uma excelente pessoa, que infelizmente perdeu um filho e nunca mais pôde ter outro. Para lhe recompensar, a minha mãe deixava-a tratar das nossas festas de aniversário, Baptismos, Comunhões…por aí. E, não é fácil uma mãe deixar outra pessoa fazer o seu papel. Porém, a minha mãe encara isso como uma bênção e fez-lhe feliz enquanto esteve entre nós. 🙂
    Bem, grande testamento, hehe. Beijinhos para ti, para o teu mano e avô! 🙂

    • Josie =) é uma inspiração, sim, e tenho muito orgulho nele. Sinto muito pelo que aconteceu com a tua tia… infelizmente, nem todas as batalhas são ganhas e antes da vitória do meu irmão tivémos duas “derrotas” na família: a minha tia-avó e o meu tio-avô. Obrigada por teres partilhado a tua história também, é para isso que serve este espaço de comentários neste blog =) e foi um gesto muito bonito, o da tua mãe. Um, não, vários! Beijinhos para ti e para a tua mãe, já agora =P

  3. Ana Ramalheira permalink

    Querida filhota. Desde que aí estás, hoje foi o dia que mais me custou, as saudades estão a ser imensas.
    É verdade que hoje foi um dia muito especial e que o celebrámos de uma maneira também especial.
    Mas estiveste muito presente…
    Esta experiência por que passámos, tornou-nos a todos melhores pessoas.
    Tenho muito orgulho no Miguel, mas também tenho muito orgulho no João e em ti…
    Ainda hoje fiquei “inchada” quando me disseram: Parabéns pelos teus filhos!
    um grande beijinho carregadinho de miminhos!!
    …contagem decrescente.:)

  4. Jose A. Sousa permalink

    GOSTEI MUITO.BEIJINHOS.(estivemos ontem na festa,eu a tia e a Inês)

  5. Cristina Simões permalink

    Catarina, o texto está lindo! De todas as sortes que o Miguel tem uma das maiores é a Familia. A Familia toda mas sobretudo os irmãos maravilhosos. Tu escreveste , mas o João disse-o de uma forma incrivel. Bjs Cristina

  6. pocassantos permalink

    Olá Catarina,
    A tua mensagem, que agora aqui partilhaste com os leitores do blog e que o João Pedro leu com grande coragem (não era um texto fácil, que se lesse sem emoção…) , foi um momento particularmente comovente da Eucaristia de Ação de Graças da passada sexta-feira na Igreja da Parede.
    Um texto muito bem escrito, em que deixaste que sentimentos fortes se transformassem, sem lamechices, nas mais bonitas palavras que uma irmã pode escrever sobre o seu irmão!
    Bjs.
    João (+Graça +João Maria +Teresa)

  7. Guida Ramalheira permalink

    Querida Catarina:
    Neste dia sim, senti que querias estar com os teus pais, irmãos e avós, senti no teu sorriso uma saudade…
    Estiveste muito presente, faltou só um abraço bem apertado ao Miguel e ao avô.
    O tempo está passar e já falta pouco tempo para regressares.
    A avó está desejosa que regresses mas tem-se portado muito bem!
    Um beijinho
    Tia Guida

    • Olá tia. Sim, já tenho algumas saudades, mas também já passou mais de metade do tempo, quando der por ela já está na altura de voltar. Beijinhos

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